O LIVRO DE ENOQUE


Este artigo tem a intenção de analisar a autenticidade do livro de Enoque. Com autenticidade queremos dizer ser um livro biblicamente canônico e de autoria do próprio Enoque.

SOBRE O LIVRO


Existem pelo menos três livros de Enoque, e todos são diferentes entre si. Não são simplesmente traduções diferentes, são livros totalmente diferentes que usam o nome do afamado personagem bíblico para chamar a atenção. O mais conhecido desses livros é o 1 Enoque, também chamado de Enoque etíope, já que nessa língua ele foi preservado completo.
Parece ter sido um livro bem conhecido nos dois séculos que precederam a vinda de Cristo. Na caverna de Qumram, onde se acharam os Rolos do Mar Morto, havia também fragmentos do livro, provando que ele era difundido entre muitos judeus.


PORQUE O LIVRO CAUSA TANTO INTERESSE


O livro de Enoque suscita curiosidade porque, segundo Gênesis 5:24, "Deus o tomou". Desse trecho o imaginário popular judeu tirou muitas conclusões, e uma tradição curiosa se formou em torno do homem que, segundo muitos, "foi para o céu" (transferido ou trasladado, Hebreus 11:5). Quantos segredos poderiam ter sido revelados a um homem que esteve no plano transcendente? Que revelações um livro escrito por tal homem poderia conter? Não é a toa que um suposto livro escrito por Enoque gera tanta curiosidade.
Há quem diga que o ponto não é necessariamente Enoque ter "ido aos céus", mas ele ter "andado com Deus" (Gênesis 5:24). Entendem um tanto literalmente a passagem e acham que Deus e Enoque discutiam sobre os segredos do Universo e Deus lhe revelava mistérios e acontecimentos futuros. Por isso, além de conhecimento científico superior, Enoque supostamente soube de muitos outros segredos. Por exemplo, ele teria sabido não só o nome do principal anjo caído, mas de 20 desses chefes dos demônios.


A AUTORIA


Parece difícil crer que Enoque teria escrito 3 livros diferentes, espalhados em diferentes direções, de modo que em línguas diferentes só um deles sobreviveria inteiro. No entanto, poderia ter sido o livro que sobreviveu no idioma etíope antigo, o mais famoso dos três, ter sido escrito por ele?
Muitos que estudam a datação desse livro se baseiam nas conclusões de George W.E. Nickelsburg e James C. Vanderkam, que escreveram um livro chamado "1 Enoch: The Hermeneia Translation". Os autores afirmam que o Livro dos Vigilantes começou a ser escrito no terceiro século. A enciclopedia do Cristianismo, em inglês (De Fahlbusch e Bromiley) aponta como sendo aproximadamente do ano 100 aC a seção chamada Livro das Parábolas.
Vemos aqui a dificuldade que o defensor da autoria de Enoque terá para provar sua declaração. Um livro que levou séculos para ser escrito poderia realmente ter sido escrito por Enoque, que viveu séculos. Mas ele não viveu nos séculos que imediatamente precediam a Cristo. O aparecimento do livro foi gradual e só a partir do 3º século aC, mas se tivesse sido escrito por Enoque (e tivesse sido salvo por Noé no dilúvio), quando reaparecesse no 3º século, ele apareceria de uma vez, já inteiro, pois sua escrita já teria sido concluída. O aparecimento gradual do livro pesa contra a ideia de que foi Enoque que o escreveu.


A CANONICIDADE


"Por que o livro foi removido do Cânon bíblico?" Alguns perguntam. Não foi removido, porque nunca esteve nele. A tradição judaica não o lista entre os livros aceitos como inspirados por Deus. Malaquias, do 5º século aC, é aceito como o último livro canônico do Velho Testamento. Livros posteriores, como os dos Macabeus ou aquele que chamaram de Enoque, não figuram nas listagens dos inspirados.
O livro foi aceito pela igreja copta, uma ramificação da cristandade que se enraizou no Egito e influenciou a região, da qual a Etiópia faz parte. Por isso o livro sobreviveu inteiro no idioma deles. A aceitação pela igreja copta foi facilitada pelo fato de que alguns judeus locais já aceitavam o livro, antes do cristianismo entrar na região.
Há um argumento de que foi o rabino Shimon bar Yochai (Simeão filho de Yohai) que colocou os judeus contra o livro de Enoque. A ideia é de que o livro era considerado canônico até que Simeão forçou sua remoção, ou repúdio. Mas a tradição judaica já tinha suas listagens de quais livros eram aceitos como canônicos antes disso, e Simeão filho de Yohai era do segundo século depois de Cristo. Ele não poderia ter influenciado o passado, obviamente.
Além disso, o espírito santo, atuando de maneira milagrosa no primeiro século (vinda de Cristo, pentecostes de 33 dC e outros atos milagrosos) também atuaria no sentido de direcionar os cristãos para os livros autênticos. Os primitivos cristãos não deixariam de usar um livro canônico por influência um líder de outra religião, um rabino judeu.
Obviamente, quem despender tempo na leitura do livro de Enoque precisará estar atento ao inteiro Cânon Bíblico. Um livro não pode estar desalinhado como todos os demais.
Muitas supostas citações ao livro de Enoque, por outros livros não passam de citações da própria bíblia. Há quem afirme que Hebreus 11:5 cita o livro de Enoque. Na verdade cita Gênesis 5:24. Outra dessas citações é analisada abaixo.


CITADO NO LIVRO JUDAS?


"Como pode um livro não canônico ter sido citado pela carta de Judas?" - Eis a pergunta que tenta mostrar que o livro é inspirado, já que é citado por outro, reconhecidamente inspirado. Trata-se de Judas 1:14 que muitos entendem que foi retirado do livro de Enoque. A pergunta faz sentido, haja vista que um dos argumentos usados para comprovar inspiração é um livro ser citado por outro reconhecidamente inspirado.
É muito possível que fontes não canônicas tenham preservado informações verdadeiras, depois usadas por escritores inspirados. Os nomes dos sacerdotes egípcios, Janes e Jambres, não estavam no Velho Testamento, mas Paulo os citou numa carta a Timóteo (2 Timóteo 3:8). Estêvão sabia que Moisés tinha 40 anos quando fugiu do Egito, informação não contida em Êxodo.
Havia um "Livro da História da Época dos Reis de Judá/Israel" (2 reias 14:19, 29), um livro com dados importantes (ou mais de um), que mesmo sendo citado nos livros canônicos, era um livro meramente histórico. Não é impossível que os escritores bíblicos tenham lançado mão de tais escritos para compor os escritos sagrados. Claro, o espírito santo permeava tudo, não permitindo que informação errônea penetrasse nos livros inspirados.
O ponto é: se a citação de Judas é tão parecida com a do livro de Enoque, é porque da mesma fonte que Judas bebeu, os escritores do chamado livro de Enoque podem ter bebido.
No entanto é muito seguro dizer que Judas na verdade usou trechos da própria bíblia. Que Enoque era o sétimo da linhagem de Adão é fácil afirmar, porque Gênesis traz essa informação. E Judas mencionar que Deus viria com seus milhares de anjos também não seria incomum, haja vista que Deuteronômio 33:2 traz similar linguagem.

ENOQUE ANDOU COM DEUS


Muitos acham ser óbvio que alguém que andava com Deus deveria ter um livro com seu nome. Claramente, não é assim que funciona. Abraão foi chamado de amigo de Deus. Quer maior intimidade que isso? Mas não podemos entender com isso que Abraão e Deus saíam juntos para se divertir e um contava seus problemas e alegrias para os outro num bate papo descontraído. Também não podemos acreditar que ele deveria ter um livro em seu nome só porque era amigo de Deus. E isso não dá o direito de alguém escrever um livro séculos, ou até um milênio depois, e colocar o livro de Abraão e depois dizer que é óbvio que o livro é canônico porque Abraão era amigo de Deus.
Noé também andava com Deus (Gênesis 6:9). Então todo o frenesi que Enoque causa por causa de suas "andanças" com Deus, deveria estar voltado para Noé também, e ele deveria ter um livro com seu nome. Sem dúvida, Noé não andava com Deus num sentido muito literal, assim como foi com Enoque. É uma expressão que mostra que tais servos de Deus, trilhavam o caminho da orientação divina.

ENOQUE FOI PARA OS CÉUS?


Não. A fonte dessa negativa é o senhor Jesus. Quando estava na Terra, ele disse que nenhum homem na ocasião havia subido aos céus (João 3:13).
Com isso em mente, como deve ser entendido Hebreus 11:5? Vivendo num mundo pré-diluviano violento e pregando contra os ímpios, Enoque poderia sofrer violentamente nas mãos deles. Claro que o imaginário popular prefere acreditar que ele foi transferido para o plano transcendental, os céus, e lá continuou vivendo. Mas não podemos contradizer a Cristo. A palavra grega em questão é μετατίθημι e ela principalmente se refere a transferir algo ou alguém... mas entre outros significados, pode se referir a uma mudança ou troca de lado. Mudança da terra para o céu? Ora, mudar da vida para a morte também é uma mudança. Transferência do imanente (aqui) para o transcendente (céus)? Segundo o Cristo, não. Então pode ser transferência da condição de vivo para a de morto. "Deus o tomou", diz Gênesis 5:24.
Num mundo onde as pessoas tinham uma sobrevida incrível, Enoque não morreu de causas naturais nem foi assassinado. Sua morte foi causada por Deus.

Conclusão


As pessoas atualmente gostam de teorias da conspiração e de ideias que contrariam o que acham entendimento comum. E estudos nessa direção podem trazer novidades interessantes mesmo. Não é o caso agora.
O livro de Enoque evidentemente nunca esteve no cânon bíblico. Suas seções foram escritas em períodos de tempo diferentes entre si e diferente da época em que ele viveu. Ele andou com Deus num sentido menos literal que muitos preferem crer e sua ida aos céus não ocorreu, pois "Deus o tomou" quer dizer que Deus o fez adormecer na morte, poupando Enoque do mundo ímpio e violento que o cercava.

Comentários

Ester Oliver disse…
Este comentário foi removido pelo autor.

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