O Inferno existe? - Argumentação a respeito do vídeo do Canal "Vai na Bíblia"
Esse artigo tem a intenção de fazer todos aqueles que gostam de “Ir na Bíblia” repensar alguns dos argumentos colocados no vídeo “O Inferno existe? | Esdras Savioli” que está no canal do Youtube “Vai Na Bíblia”
Começamos dizendo quão prazeroso é ver uma pessoa jovem tão interessada em artigos bíblicos, ao ponto de aprofundar-se como Savioli fez. No entanto, entendemos ser vital colocar contrapontos importantes na argumentação dele. E é o que faremos a seguir, acompanhando a argumentação dele no vídeo.
No entanto, se você não guarda interesse por uma análise de tradução e significado de palavras, peço que pelo menos leia os dois último substítulos:
·
Porque o inferno como vida eterna em
sofrimento no sentido comum da palavra não é bíblico
·
Deus
poderia ter criado um inferno para sofrimento eterno dos impenintentes?
Sheol e Hades
Passando dos 1:10 de vídeo, Savioli comenta algo importante e correto: Sheol hebraico, do Antigo Testamento, não é inferno. Este é um entendimento importante, porque a Vulgata Latina traduziu como inferno a palavra Sheol, e depois a própria Vulgata foi base para muitas traduções aos idiomas hodiernos. Veja o Salmo 9:17:
(Vulgata) convertantur peccatores in infernum omnes gentes quae obliviscuntur Deum
(Almeida
atualizada) Os ímpios
irão para o Seol, sim, todas
as nações que se esquecem de Deus.
(Almeida
Corrigida, Fiel ao Texto) Os ímpios serão lançados no inferno,
e todas as nações que se esquecem de Deus.
(Nova
Versão Internacional) Voltem os ímpios ao pó,
todas as nações que se esquecem de Deus!
(Sagradas
Escrituas Versión Antigua) Los malos volverán al sepulcro;
todos los gentiles que se olvidan de Dios.
A palavra hebraica Sheol foi sublinhada, nas diversas traduções acima. O leitor mais desavisado poderá ler no Salmo 9:17 que o ímpios irão ao inferno e pronto. Ele leu na Bíblia dele. Mas a palavra grega tinha outro sentido. Conforme explicado no vídeo por Savioli, os que estão no Sheol não estão no inferno, nem estão conscientes (Eclesiastes 9:10). O mesmo erro ocorreu com a tradução da palavra grega Hades.
Geena
Depois de 1:45, Savioli diz que Geena não é inferno, “supondo tratar-se de um lugar onde se queimava lixo fora de Jerusalém”.
A Geena era o vale de Hinom. Em hebraico era גי הנם (geh hin·nóm); o nome foi helenizado para γέεννα (gé·en·na) e por fim foi latinizado para ge·hén·na.
O local foi citado na Bíblia no
Velho Testamento em lugares como Josué (15:8) ou 2 Reis (23:10). O histórico do
lugar não é o mais importante, mas sim, o que Jesus tinha em mente ao citá-lo,
porque como disse Savioli, “(...) Jesus sempre usava coisas do cotidiano para
ilustrar uma verdade espiritual”.
O que as pessoas
entendiam por Geena no cotidiano? A pergunta é pertinente, porque se elas
entendiam Geena de um jeito e Jesus estava usando o termo para um entendimento
diferente, se perderia a vantagem de usar coisas do cotidiano, técnica cuja
função é ajudar, por analogia. Veja como essas obras descrevem a Geena:
Smith’s
Dictionary of the Bible (Boston, 1889, Vol. 1, p. 879.) "Tornou-se o depósito de lixo comum da
cidade, onde se lançavam os cadáveres de criminosos, e as carcaças de animais,
e toda outra espécie de imundície."
Novo
Comentário Bíblico (página 779, em inglês) "Geena era a forma helenizada do nome do vale de Hinom em
Jerusalém, no qual se mantinham constantemente fogos acesos para consumir o lixo
da cidade. Este é um poderoso quadro da destruição final."
The
New Funk & Wagnalls Encyclopedia (Nova Iorque, 1950, Vol. 15, p. 5576)
"Visto que alguns
israelitas sacrificavam ali seus filhos a Moloque, o vale veio a ser
considerado como lugar de abominação. Num período posterior foi transformado
num lugar onde se jogava o lixo, e perpetuavam-se os fogos para impedir uma
pestilência."
Sim, o vale estava
ligado ao fogo. O rei Acaz chegou a sacrificar seus filhos ali, queimando-os. O
rei Manassés fez o mesmo. Depois o fogo continuou por ali, quando os judeus
passaram a usar o local como destino de lixo da cidade.
Agora pare e pense.
As pessoas dos dias de Jesus conheciam
uma Geena (vale de Hinom) que servia como lugar para depositar e eliminar lixo.
Talvez um judeu tivesse algo que no momento não servia, mas ele ainda quisesse
guardar para uso futuro, então isso ele não lançaria na Geena. Mas e quanto a
um móvel quebrado ou animal morto? Não tendo mais uso pra isso, a intenção
agora era eliminar o lixo. Fazê-lo sumir. O que melhor do que o fogo para tal
fim? Até em dias modernos muitas pessoas queimam o que não querem mais, pois é
um modo eficiente de eliminar o que não presta pra mais nada.
Até mesmo cadáveres
de criminosos eram lançados lá, conforme mencionou uma das obras antes citadas.
Mas pare e pense... os mortos eram lançados lá na Geena para sofrer punição, ou
somente para serem eliminados? Os criminosos eram lançados lá já mortos. Era
uma eliminação, não uma punição em vida, para sofrer. Havia uma punição no
sentido de nem ter um enterro digno, mas o criminoso já estava morto o ser
lançado na Geena. O próprio lixo era lançado na Geena para sofrer punição, ou
apenas para ser eliminados? Que ligação os judeus fariam com a ideia de Geena?
Seu eu fizesse uma
ilustração e dissesse para todos pegar o preconceito e eliminar, por jogar na
lixeira, e esperar o caminhão de lixo levá-la embora, não entenderia você que a
ideia era “desfazer-se por completo” do preconceito? Eliminá-lo por completo,
sem permitir que volte?
Tendo os judeus uma Geena para seu depósito e eliminação de lixo, que analogia Jesus oferecia ao falar de cuidar para não ser lançado na Geena? Cuidar para não ser descartado como lixo, de uma vez por todas? Ou cuidar para não ir para um lugar de sofrimento eterno?
Não... nada ou ninguém era lançado na Geena daqueles dias
para sofrer, mas sim, par ser eliminado. Pense nisso, e relembre a frase dita
por Savioli, “(...) Jesus sempre usava
coisas do cotidiano para ilustrar uma verdade espiritual”.
A pior dor que já sentimos... intensificada e sofrida eternamente
Depois de 3 minutos de vídeo, Savioli pede para pensarmos na pior dor que já sentimos na vida, física ou emocional. Ele alega que no inferno, tais dores serão intensificadas e prolongadas. Muitas pessoas já sentiram um desespero tão forte, que chegaram a tentar o suicídio. A dor emocional pode ser insuportável. E Savioli diz que Deus irá intensificar essa dor quando lançar um ímpio no inferno. Dias atrás encostei meu dedo rapidamente na chaleira fervente. Foi uma dor incrivelmente forte. Somente um ser cruel intensificaria e prolongaria uma dor assim.
Quem conhece Deus de verdade, sabe que ele é o ser descrito em 1 João 4:8. O mesmo ser que amou tanto o mundo, que mandou seu filho Jesus para nos salvar. Savioli comenta mais para frente que não temos direito de questionar Deus, que ele pode tudo, como soberano. Poder para fazer tudo ele tem, soberano de tudo Ele é. Mas se ele fosse um Deus que intensificasse nossas dores por tempo ilimitado, um Deus de amor ele não seria. As duas situações são inconciliáveis. Por exemplo, Deus teria o poder de mentir quando quisesse, mas se o fizesse não seria um Deus que não pode mentir, como Ele mesmo se descreve.
Logo, por uma questão não somente bíblica, mas de lógica, ele não pode ser um Deus de Amor e ao mesmo tempo um Deus que planejou o futuro dos malfeitores num tormento terno de dores inimagináveis.
Mateus 10:28
Por volta de 3:30, Savioli cita Mateus 10:28 que fala:
(Almeida
Corrigida, Fiel ao Texto) E não temais os que matam o
corpo e não podem matar a alma; temei antes aquele que pode fazer perecer
no inferno a alma e o corpo.
Algumas versões usam “destruir” no lugar de “fazer perecer”. Savioli usa aqui um argumento que não está errado em si, mas que não é conclusivo. Destruir não significa obrigatoriamente fazer cessar a existência. Mas relembramos que Destruir também pode significar isso, fazer cessar a existência.
A palavra em questão é ἀπόλλυμι
(apollumi) – palavra G622 no dicionário de Strong, que pode significar
perecer, morrer, ser destruído (Veja apêndice).
Então temos uma palavra que pode significar:
a)
Perder o propósito para o qual
algo foi feito. Uma casa
destruída ainda pode existir, conservando parte do que fora um dia, mas sem
oferecer condições para moradia.
b)
Perecer:
Cessar de viver, morrer.
Do que o Mateus 10:28 parece estar falando? Almeida preferiu o termo “fazer perecer” talvez porque o próprio versículo dá indícios do significado de apollumi. O texto começa falando sobre “matar o corpo”. Alguém pode nos matar nessa vida terrena, mas não perecemos para sempre enquanto estivermos na graça de Deus. Se o texto está falando de “matar o corpo”, deve estar falando depois, na sua comparação, de “matar a alma e o corpo (fazer perecer)”, ou seja o próprio versículo nos induz a usar a interpretação B acima.
2 Tessalonicenses 1:9
Logo em seguida, o vídeo apresenta 2 Tessalonicenses 1:9. Apesar de o vídeo não mencionar qual versão bíblica foi ali usada, a Nova Versão Internacional usa essa forma de traduzir.
(NVI) Eles sofrerão a pena de destruição eterna, a separação da presença do Senhor e da majestade do seu poder.
Mas é importante que o leitor veja outras traduções do versículo:
(Almeida Corrigida, Fiel ao Texto) Os quais, por castigo, padecerão eterna perdição, ante a face do Senhor e a glória do seu poder,
(Almeida, Revista e Atualizada, 1993) Estes sofrerão penalidade de eterna destruição, banidos da face do Senhor e da glória do seu poder,
Porque essas estruturas do versículos são importantes de ser observadas? Porque o argumento de Savioli reside no fato de que o texto, como na versão que ele apontou, parece conter uma redundância, conforme explicaremos:
Se a parte “Eles
sofrerão a pena de destruição eterna” está falando de morrer
eternamente, então é claro que o destruído estaria separado da presença do
Senhor. Ora, então porque seria necessário o acréscimo pós-vírgula “a separação da presença do Senhor e da
majestade do seu poder”, na versão NVI? Seria uma informação redundante, o
que, segundo Savioli, obrigaria entendermos a pena num sentido diferente, não
como morte eterna, mas como destruição no sentido que ele já explicou antes.
Quem estaria separado do Senhor, estaria destruído, de certa forma... diminuído
do seu propósito.
No entanto, a NVI traduziu mal o texto. Desde o versículo 6, Paulo está explicando em 2 Tessalonicenses capítulo 1 que Deus vingaria os santos, trazendo vingança por meio do Senhor Jesus, que viria e eliminaria os ímpios da sua frente. Porque os ímpios seriam “banidos da face do Senhor”, ou padeceriam “ante a face do Senhor”? Porque o Senhor viera e estava ali, para bani-los ou castigá-los. O castigo não era estar separado da presença do Senhor, como sugere a NVI usada por Savioli. O castigo era a destruição eterna... a perdição eterna. A face do Senhor e sua Glória são mencionadas porque ele veio resolver esse assunto, então os ímpios acabaram ficando antes sua Face, e depois eliminados de diante dele.
Esse lapso na compreensão do contexto do versículo comprometeu o entendimento de Savioli, e inclusive de alguns tradutores, incluindo-se aí muitas bíblias em inglês. Não há a redundância alegada no vídeo se o versículo for entendido corretamente. Se você reler o texto conforme traduzido pela Almeida Corrigida, Fiel ao Texto, perceberá bem o que estamos comentando.
Morte: Significado literal e simbólico
Perto de 4:35, o vídeo menciona um significado interessante, e porque não dizer, muitas vezes verdadeiro para morte. Nem sempre a morte bíblica é a morte literal, algumas vezes ela se refere à separação de Deus, como o vídeo acertadamente menciona. Mas que o leitor atente para o fato de muitas vezes a morte bíblica é sim a morte literal, no sentido mais comum da acepção. Há um salto de lógica quando Savioli diz que a morte TAMBÉM significa estar separado de Deus, e depois, quando falamos de Segunda Morte (Apocalipse 20:14) ele assume esse possível significado como único significado.
Se a morte no Novo Testamento também, e principalmente, é a morte literal, a Segunda Morte pode sim
significar uma morte literal. Então, o vídeo chega a fazer uma acusação não
somente forte, mas injusta e curiosa, porque chama o tendencioso do vídeo chama
de tendencioso quem entende diferente da interpretação dele. Ora reveja os
argumentos: Morte na Bíblia pode ser simbólica (estar separado de Deus) ou
literal (morrer mesmo). Ele diz que UMA das interpretações para morte é a
simbólica, mas chamada de tendencioso quem entende a Segunda Morte como uma
morte literal. Oras, a morte bíblica tornou-se obrigatoriamente simbólica?
Kolasin: Punição Eterna
Ao comentar Mateus 25:46 Savioli usa novamente uma versão que emprega a expressão “tormento eterno”. Vale a pena tentar entender o que as palavras gregas comunicavam. Infelizmente, o vídeo decidiu se concentrar no grego “aionion”. Aionion não era o problema, mas sim, a palavra “kolasin”. Kolasin se refere à punição que alguém merecia. Podia ser acompanhada de tortura, por isso kolasin podia falar apenar de uma prisão, ou de um castigo corporal.
Um “kolasin eterno” poderia ser uma punição eterna, como uma prisão eterna ou uma morte eterna, por exemplo, ou um castigo/tormento eterno. Era “kolasin” a palavra grega que o vídeo deveria estudar com mais cuidado. Veja como o versículo foi traduzido algumas vezes:
(Almeida,
Revista e Atualizada, 1993) E irão estes para o castigo eterno, porém os justos, para a vida
eterna.
(American Standard Version) And these shall go away into eternal punishment: but the righteous into eternal life. (punição eterna)
(Darby) And these shall go away into eternal punishment, and the righteous into life eternal. (punição eterna)
(INR) Questi se ne andranno a punizione eterna; ma i giusti a vita eterna". (punição eterna)
O que é a morte eterna, senão uma punição eterna? Um texto que o vídeo aponta como um grande problema para os que apóiam nossa visão, na verdade não representa problema nenhum. Infelizmente, como dissemos, o vídeo fica implicando com a palavra grega “aionion”, que não é o cerne da questão.
Assim como comentamos em Mateus 10:28, o texto aqui deixa claro um contraste vida eterna/punição eterna. O antônimo mais apropriado aqui para vida seria a morte. A punição poderia ser a morte ou o tomento. Não é um argumento conclusivo, como o do vídeo não foi, mas a antítese de vida apontaria com mais propriedade para morte do que para tormento.
Kolasin aionion – punição eterna, contrastando com
Zoen aionion – vida eterna
Ao rever o vídeo, lembre-se das traduções acima colocadas; não aceite que a tradução apontada pelo vídeo é a única possível, como talvez o vídeo quis fazer parecer.
Mateus 18:8
Sobre fogo Eterno de Mateus 18:8, vale a pena entendermos de uma vez por todas uma simbologia bíblica, que servirá para entendermos Lago de Fogo, Geena (que tinha fogo), e o próprio texto de Mateus 18:8.
Quando uma profecia em Isaías mencionou um julgamento contra os edomitas, a palavra profética mencionou rios cheios de pez ardebte (piche), enxofre e fumaça que não se apagariam para sempre. Claro é que ninguém vai hoje naquelas terras hoje e vê uma fumaça que nunca parou desde aqueles dias. Qual é o ponto aqui então?
O fogo ardente, que não se apaga, era simbólico. Significa que Edom seria destruída e teria sua punição, conforme profetizado. O fogo aqui também não tem que ver com tormento eterno, mas si, com destruição eterna. Tome o leitor a sério essa relação bíblica entre destruição e fogo simbólico e entenderá as várias expressões sobre fogo e semelhante no Novo testamento.
Marcos 9:44
Sobre Marcos 9:44, igualmente é preciso entender a simbologia e o vocabulário bíblico. Se sua Bíblia omite o texto de Marcos 9:44, leia os versículos 47-48. O texto fala que na Geena os vermes não morrem e o fogo não se apaga. Antes de tirar conclusões precipitadas, devemos entender que Jesus usava um vocabulário bíblico pré-existente citado em Isaías 66:24.
(Almeida Corrigida, Fiel ao Texto) E sairão, e verão os cadáveres dos homens que prevaricaram contra mim; porque o seu verme nunca morrerá, nem o seu fogo se apagará; e serão um horror a toda a carne.
Está falando esse texto do inferno? O vídeo de Savioli mesmo informa que não, haja vista que ele disse que ninguém ainda estava no inferno. O texto de Isaías fala de que? De Cadáveres... sim, de homens mortos, prevaricadores. Ali o texto fala de gusano (verme) que não morre e de Fogo que não se apaga. Pense bem. São os vermes que dão fim num corpo, por decomposição. Fogo é aquilo que dá fim completo a algo por incineração. Os cadáveres não estavam ali para tormento eterno, mas sim, para eliminação completa.
O local dos corpos não num mundo infernal. Os judeus veriam os cadáveres ali na Palestina (“e sairão e verão os cadáveres”). Você acha que tem vermes imortais até hoje tem em Israel, e fogo que nunca se apagou desde aqueles dias até hoje. Claro que não. Simbolismo... Precisamos entender o simbolismo que decomposição (verme) e incineração (fogo) representam. Daí entenderemos por fim a Geena e o Lago de Fogo.
Apocalipse 20:10
E por que Apocalipse 20:10, não pode estar falando de tormento eterno no sentido literal, se o texto parece estar dizendo isso mesmo?
(Almeida Corrigida, Fiel ao Texto) E o diabo, que os enganava, foi lançado no lago de fogo e enxofre, onde está a besta e o falso profeta; e de dia e de noite serão atormentados para todo o sempre.
Porque continua havendo simbolismo aqui. Leia um pouco mais, até o versículo 14, e você mesmo vai entender sem muito esforço:
(Almeida Corrigida, Fiel ao Texto) E a morte e o inferno foram lançados no lago de fogo. Esta é a segunda morte.
A morte não é alguém, é um substantivo abstrato. Se o Lago de Fogo e Enxofre é um local para tormento eterno, dia e noite literalmente falando, o que a morte vai fazer ali? Deus vai atormentar um substantivo abstrato? Como se “lança” a morte nesse lago, se não for explicar isso figurativamente? Como lançar o Hades/inferno no Lago de Fogo pra atormentar ele?
Além de ser absurdo pensar nesses lançamentos de um modo mais literal, o próprio João já como que nos alerta “Pessoal, esse lago de fogo não é um lago de fogo hein... ele está representando algo, ele é a Segunda Morte”. Quem é lançado nesse lago sofre uma morte de eliminação completa, conforme fomos lembrados nas profecias que mencionam o fogo.
A Segunda Morte é uma morte, mas uma morte de onde não tem
volta, não há ressurreição. É uma morte eterna, por isso, é um castigo eterno
ou um julgamento eterno. Que esse castigo seja morte e não sofrimento, é a
ideia que se percebe quando voltamos ao começo do homem...
Porque o inferno como vida eterna em sofrimento no
sentido comum da palavra não é bíblico
Quando Deus criou Adão, ele informou o homem sobre as bênçãos ou a punição que viriam em caso de obediência ou falta dela. Esse era um dos melhores momentos para deixar claro que o humano iria para um inferno no sentido de viver eternamente em agonia. Mas o que vemos?
Em Gênesis 2:7 Deus fala sobre a desobediência, no caso em questão, concentrada na questão de comer ou não um fruto.
Gen 2:17 Mas da árvore do conhecimento do bem e do mal, dela não comerás; porque no dia em que dela comeres, certamente morrerás. (Almeida, Fiel ao Texto).
Note que o castigo ali informado era a inexistência, a morte, o que faz muito sentido para um Deus justo, mas amoroso. Ele não tinha o desejo de fazer Adão sofrer indefinidamente, mas sua justiça o fez eliminar um desobediente.
Além disso, Paulo, o apóstolo, lembra que existe uma correspondência entre pecado e morte, e não entre pecado e sofrimento eterno.
Rom 6:23 Porque o salário do pecado é a morte, mas o dom gratuito de Deus é a vida eterna, por Cristo Jesus nosso Senhor. (Almeida, Fiel ao Texto).
O mesmo texto acima reforça uma mensagem importante: A vida eterna não é uma maldição, do tipo que seria melhor estar morto do que vivo (como seria num inferno). A vida terna é uma benção, uma graça, um dom gratuito que Deus nos oferecer por meio de seu filho, o Senhor Jesus.
Deus poderia ter criado um
inferno para sofrimento eterno dos impenintentes?
É o que o autor do vídeo nos faz pensar. Ele ainda lança a pergunta de por que as criaturas acham que podem questionar o criador e soberano de tudo. É uma pergunta que tem seu valor. Deus tem o direito de estabelecer o certo e o errado. Mas é óbvio que a criação do inferno para tormento eterno traz implicações inescapáveis:
Pense no que significa sofrer eternamente. Pensou em sofrer terrivelmente por 5 mil anos? Bem isso não é muito, porque esse sofrimento nunca acabaria. Pensar que qualquer um deva sofrer eternamente por causa de erros causados numa vida de algumas décadas distorce qualquer, sim, qualquer senso de justiça. A ideia de que alguém sofra tanto e para sempre é perturbadora. Mas pensar que ela está nessa situação por ordem divida vai em choque contra a ideia de que “Deus é Amor” (1 João 4:8).
Deus tem poder e autoridade para criar essa situação? Tem, mas as implicações morais são inerentes e não há como fugir delas. Veja as perguntas suscitadas pelo teólogo católico Hans Küng: “Observaria o Deus de amor . . . por toda a eternidade esta infindável, desesperançada, impiedosa, desamorosa, física e psicologicamente cruel tortura de suas criaturas?” ... “É ele um credor tão empedernido? . . . Que pensaríamos de um ser humano que satisfizesse sua sede de vingança de modo tão implacável e insaciável?”
Quem faz uma afirmação não conhece um Deus que nos pede para amar até nossos inimigos. Não acha contraditório um Deus que nos pede isso enquanto tortura eternamente os inimigos Dele?
O que você aprende da justiça de Deus que em Êxodo 21:23-24 se preocupa com o equilíbrio na aplicação da pena? Será que ele disse “Olho por vida”? Será que ele disse “Vida de um por Família inteira de outro”? O Deus bíblico é um Deus magnífico no seu equilíbrio, no seu amor, e na aplicação da justiça. Não é um Deus bobo contra o qual se pode mofar. Mas nunca seria o Deus que criaria um inferno à maneira do vídeo que citamos nesse texto.
APÊNDICE
Palavra G622 de Stong:
ἀπόλλυμι
apollumi - ap-ol'-loo-mee
From G575 and the base of G3639; to destroy fully (reflexively to perish, or lose), literally or figuratively: - destroy, die, lose, mar, perish.
Total KJV occurrences: 92
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